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Cisterna e chuva

Cisterna de água de chuva: como dimensionar pela chuva da sua cidade, filtrar e usar

Um telhado de 100 m² colhe mais de 100 mil litros de chuva por ano em quase todas as capitais. O segredo é guardar a água certa, do tamanho certo, e usá-la só para o que ela serve.

Por Redação EcoamazoniaAtualizado em 11 min de leitura

Cisterna de polietileno ao lado de uma casa, ligada à calha do telhado por um filtro e um separador da primeira água

Para dimensionar uma cisterna, multiplique a chuva anual da sua cidade (em milímetros, das normais do INMET) pela área do telhado em m² e por um coeficiente de aproveitamento de cerca de 0,8: o resultado é quantos litros você colhe por ano. Um telhado de 100 m² em São Paulo, com 1.658 mm por ano, colhe perto de 132 mil litros, uma média de 11 mil litros por mês. A cisterna não precisa guardar tudo isso: o tamanho certo é o que cobre o seu uso no intervalo entre as chuvas, normalmente de 1.000 a 5.000 L numa casa urbana. A água de chuva, pela ABNT NBR 15527:2019, é para usos não potáveis, como descarga, lavagem de piso e rega, e precisa de descarte da primeira água, filtro e tampa bem fechada.

1 mmde chuva em 1 m² de telhado dão 1 litro
0,8coeficiente de aproveitamento usado nas contas
2 mmdescarte inicial sugerido pela NBR 15527 sem projeto
16 mil Lcisterna familiar do Programa Cisternas

Quanta água de chuva meu telhado colhe por ano?

A conta parte de uma igualdade simples: 1 mm de chuva sobre 1 m² de telhado é 1 litro de água. Daí, litros por ano = chuva anual (mm) × área do telhado (m²) × 0,8. O 0,8 desconta o que se perde por evaporação, respingo, telhado poroso e a primeira água descartada; telhado de telha cerâmica perde mais que telha metálica. A área que conta é a projeção horizontal do telhado, a "sombra" dele no chão, e só das águas que chegam à calha ligada à cisterna.

A tabela usa a precipitação acumulada anual das Normais Climatológicas do INMET de 1991 a 2020, medida na estação convencional da capital (Campo Grande pela normal de 1981 a 2010). Rio de Janeiro e Porto Velho ficaram fora porque não têm estação da capital nessas normais.

Água de chuva por 100 m² de telhado nas capitais (coeficiente 0,8; INMET 1991-2020)
CapitalChuva por anoColhe por anoMédia por mês
Belém (PA)3.308 mm264.640 L22.100.0 L
Macapá (AP)2.526 mm202.080 L16.800.0 L
Manaus (AM)2.362 mm188.960 L15.700.0 L
Recife (PE)2.156 mm172.480 L14.400.0 L
São Luís (MA)2.117 mm169.360 L14.100.0 L
Rio Branco (AC)2.011 mm160.880 L13.400.0 L
João Pessoa (PB)1.837 mm146.960 L12.200.0 L
Salvador (BA)1.833 mm146.640 L12.200.0 L
Maceió (AL)1.808 mm144.640 L12.100.0 L
Florianópolis (SC)1.766 mm141.280 L11.800.0 L
Boa Vista (RR)1.754 mm140.320 L11.700.0 L
Palmas (TO)1.750 mm140.000 L11.700.0 L
Natal (RN)1.691 mm135.280 L11.300.0 L
São Paulo (SP)1.658 mm132.640 L11.100.0 L
Curitiba (PR)1.631 mm130.480 L10.900.0 L
Goiânia (GO)1.611 mm128.880 L10.700.0 L
Fortaleza (CE)1.584 mm126.720 L10.600.0 L
Belo Horizonte (MG)1.578 mm126.240 L10.500.0 L
Cuiabá (MT)1.516 mm121.280 L10.100.0 L
Porto Alegre (RS)1.495 mm119.600 L10.000.0 L
Brasília (DF)1.479 mm118.320 L9.900.0 L
Campo Grande (MS)1.455 mm116.400 L9.700.0 L
Vitória (ES)1.384 mm110.720 L9.200.0 L
Teresina (PI)1.329 mm106.320 L8.900.0 L
Aracaju (SE)1.189 mm95.120 L7.900.0 L

A média mensal engana, e é aqui que muita cisterna é mal dimensionada. Em Brasília, Goiânia, Cuiabá, Palmas e Teresina quase toda a chuva cai entre outubro e abril; nos meses secos o telhado não rende nada. No litoral do Nordeste a estação chuvosa é outra, de outono e inverno. Por isso, para usar a água o ano todo, seria preciso guardar meses de consumo, o que raramente compensa numa casa urbana. A estratégia mais comum é uma cisterna que cubra de uma a duas semanas de uso não potável e se reabasteça a cada chuva, com a água da rede entrando como complemento quando ela esvazia.

Faça a conta com a sua cidade e o seu telhado na calculadora abaixo. Ela cruza a oferta de chuva com o seu uso e sugere o volume.

De que tamanho deve ser a cisterna?

Comece pela demanda. Some os usos que a água de chuva vai atender, por dia:

  • Descarga: cada acionamento de caixa acoplada gasta de 6 a 9 L. Uma família de 4 pessoas dá perto de 20 descargas por dia: de 120 a 180 L.
  • Rega: jardim e horta pedem de 3 a 5 L por m² a cada rega em dia quente. 30 m² regados em dias alternados dão cerca de 60 L por dia.
  • Lavagem de quintal e carro: de 50 a 150 L por vez, uma ou duas vezes por semana.

Numa casa com 4 pessoas, descarga mais rega ficam perto de 200 a 250 L por dia. Uma cisterna de 2.000 a 3.000 L cobre de 8 a 15 dias sem chuva, e um telhado de 100 m² a enche com uma chuva de 25 a 40 mm. É o tamanho que costuma equilibrar custo, espaço e aproveitamento. Para sítio com criação ou irrigação maior, ou para quem vive no semiárido, a conta muda: aí o objetivo é atravessar a seca, e a cisterna familiar do governo tem 16 mil litros justamente por isso.

Como funciona o descarte da primeira água da chuva?

Durante a estiagem, o telhado acumula poeira, folhas, fezes de pássaros e insetos. A primeira água de cada chuva lava tudo isso e não deve entrar na cisterna. O separador (ou desviador) de primeira água é um tubo ou reservatório pequeno que enche primeiro; quando ele está cheio, uma bola flutuante fecha a passagem e o resto da chuva segue para a cisterna. Um registro no fundo esvazia o separador depois da chuva.

Quanto descartar? A NBR 15527 recomenda, quando o dispositivo é instalado sem dimensionamento de projeto, descartar os 2 mm iniciais de chuva, o que dá 200 L para cada 100 m² de telhado. Estudos de campo questionam se isso basta. Na Universidade Federal de Goiás, Rocha, Reis e Araújo testaram três tipos de cobertura: o descarte de 2 mm não foi suficiente para garantir água sem risco, e a água precisou de ao menos um tratamento simplificado depois. O Programa Cisternas, que trabalha com água de beber depois de filtrada, dimensiona o dispositivo automático para desviar o primeiro milímetro e manda esvaziá-lo a cada 48 horas no período de chuvas.

  1. Dimensione pelo telhado. Multiplique a área do telhado em m² por 2: é o volume do separador em litros para descartar 2 mm (100 m² pedem 200 L).
  2. Instale antes do filtro e da cisterna. A ordem é calha, grade ou peneira, separador, filtro, cisterna.
  3. Esvazie depois de cada chuva. Abra o registro do fundo e feche de novo. Se você esquecer, ele fica cheio e para de separar.
  4. Limpe a bola e o tubo. Sujeira acumulada trava a bola e deixa passar água suja.

Que filtro usar na cisterna?

O filtro de entrada não deixa folha, galho e sedimento grosso chegarem à cisterna. Há três formatos comuns. A grade ou peneira na calha, simples e barata, segura folhas. O filtro de descida, instalado no próprio condutor vertical, separa a sujeira por uma tela inclinada e manda para o chão o que fica retido. O filtro de cesto fica na entrada da cisterna e é fácil de tirar e lavar. Escolha um que aguente a vazão de uma chuva forte do seu telhado sem transbordar e que você consiga limpar sem desmontar nada.

Dentro da cisterna, a entrada da água deve chegar ao fundo com uma curva para cima (o chamado freio d'água), para não revolver o lodo, e a sucção da bomba deve ficar um pouco acima do fundo, com boia de sucção ou tubo flutuante, para puxar a água mais limpa da camada de cima.

O que procurar ao comprar um kit de captação. Separador de primeira água dimensionado para a área do seu telhado, filtro com tela de aço inox ou plástico resistente ao sol, tampa da cisterna que trava, tela no extravasor e no respiro, e peças de reposição fáceis de achar.

Qual bomba usar para tirar água da cisterna?

A cisterna fica no chão ou enterrada, e a água precisa subir até uma caixa elevada ou ir direto aos pontos. Se a bomba fica fora da cisterna, a soma da profundidade até o fundo e da distância vertical até a bomba não pode passar de uns 7 a 8 m de sucção, o limite de bombas de superfície. Em cisterna de até 2 m de profundidade, uma bomba periférica de 1/2 cv resolve: ela entrega bem em 15 a 25 m de altura total, o que cobre subir para uma caixa no telhado. Em cisterna funda ou distante, a bomba sapo ou uma pequena submersa dentro da cisterna evita problema de escorva.

Dois acessórios fazem diferença: a boia elétrica na cisterna, que desliga a bomba quando a água acaba, e outra na caixa de água não potável, que desliga quando ela enche. Bomba girando em seco queima o selo mecânico. A comparação detalhada está em bombas d'água e a conta de altura e vazão na calculadora de bomba.

Cisterna de polietileno ou enterrada: qual escolher?

Cisterna de polietileno aparente, cisterna enterrada e cisterna de placas
TipoVolumes comunsA favorContra
Polietileno aparente (vertical ou horizontal)500 a 5.000 LInstala em um dia, sem obra; fácil de limpar; dá para levar na mudançaOcupa quintal; precisa de base plana; ao sol, esquenta e favorece algas se não for opaca
Polietileno enterrável3.000 a 10.000 LLibera o quintal; água fresca e no escuroEscavação e base; o modelo tem de ser próprio para enterrar, ou o solo amassa a parede
Concreto ou alvenaria enterradaSob medidaVolume grande; vida longaProjeto, impermeabilização e mão de obra; vazamento difícil de achar
Placas de cimento (semienterrada)16.000 LModelo do Programa Cisternas, construído com mão de obra localObra de vários dias; exige formação para construir e manter

Para a maioria das casas na cidade, a cisterna de polietileno de 1.000 a 3.000 L junto à descida da calha é a escolha mais simples. Se o quintal é pequeno, a enterrável resolve, desde que fique fora de área alagável, longe de fossa e com a tampa acima do nível do chão para não receber enxurrada.

Como funciona o Programa Cisternas do governo federal?

O Programa Cisternas, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, existe desde 2003 e leva água para consumo e produção de alimentos por meio de tecnologias sociais simples e de baixo custo. Ele é regulado pela Lei 12.873/2013 e pelo Decreto 9.606/2018. O público são famílias rurais de baixa renda, com renda por pessoa de até meio salário mínimo, atingidas pela seca ou pela falta regular de água, além de escolas e equipamentos públicos rurais. As famílias precisam estar no Cadastro Único, e povos e comunidades tradicionais têm prioridade.

O modelo mais conhecido é a cisterna de placas de 16 mil litros, descrita na Instrução Normativa SESAN nº 51/2024: um reservatório cilíndrico, coberto, enterrado até cerca de dois terços da altura, com raio de 1,73 m e 2,40 m de altura total, ligado às calhas do telhado, com dispositivo automático de descarte da primeira água, bomba manual e um filtro de barro de 8 litros entregue à família. Não há pedido pela internet: a entidade executora do programa faz o cadastro na casa ou num local do município, a família participa de capacitações e recebe a tecnologia em até 120 dias. O serviço é gratuito; o telefone 121 do ministério dá informações.

Como fazer a manutenção e evitar a dengue na cisterna?

A cisterna é um sistema predial como outro qualquer e pede manutenção. A apresentação técnica do IPT lista os pontos: limpeza do telhado e das calhas, do separador de primeira água, do filtro, do reservatório, verificação das bombas e limpeza das caixas de passagem. O melhor momento é o fim da estação seca, antes das primeiras chuvas.

  • Toda chuva: esvazie o separador de primeira água.
  • Todo mês, na estação chuvosa: limpe a grade da calha e o filtro.
  • A cada 6 meses ou 1 ano: esvazie e esfregue a cisterna, sem sabão, e retire o lodo do fundo.
  • Sempre: tampa fechada e travada, tela no extravasor (ou sifão) e no respiro, calhas sem poças.

A dengue é o risco mais sério de uma cisterna mal fechada. No levantamento divulgado em outubro de 2026, o Ministério da Saúde informou que reservatórios de água, como caixas d'água e tonéis, respondem por 26,1% dos criadouros do Aedes aegypti, e orienta manter caixas, tonéis e cisternas bem fechados. O IPT completa: a entrada deve passar pelo filtro, o ladrão deve ter tela ou sifão, a ventilação deve ter tela e as calhas devem ser verificadas para não formar poças. Se você usar a mesma estrutura para guardar água da rede, siga também a limpeza do guia de caixa d'água. Para outras formas de reduzir a conta, veja economia de água, e para o sistema completo, água em casa.

Perguntas frequentes

Quantos litros de chuva um telhado de 100 m² colhe?

Multiplique a chuva anual em mm por 100 e por 0,8. Em São Paulo (1.658 mm) são cerca de 132 mil litros por ano; em Belém (3.308 mm), mais de 260 mil.

Posso beber a água da cisterna?

Não sem tratamento: pela NBR 15527 a água de chuva colhida do telhado é para usos não potáveis. No Programa Cisternas a água é usada para beber depois de filtrada no filtro de barro entregue com a cisterna, com descarte da primeira água e manutenção orientada.

Qual o tamanho de cisterna para uma casa de 4 pessoas?

Para descarga e rega, de 2.000 a 3.000 L cobrem de 8 a 15 dias sem chuva. Faça a conta com o seu uso diário e a chuva da sua cidade na calculadora.

Quanto devo descartar da primeira chuva?

A NBR 15527 sugere 2 mm na falta de projeto: 2 litros por m² de telhado. Estudos mostram que pode não bastar em telhados muito sujos, então esvazie o separador depois de cada chuva.

Cisterna dá dengue?

Dá, se ficar aberta. Mantenha a tampa travada, tela no ladrão e no respiro e as calhas sem poças; o Ministério da Saúde aponta os reservatórios de água entre os principais criadouros do Aedes.

Fontes e normas

  1. INMET, Normais Climatológicas 1991-2020, precipitação acumulada anual
  2. INMET, Normais Climatológicas 1981-2010 (Campo Grande)
  3. IPT, Água de chuva: boas práticas (NBR 15527:2019 e NBR 16783:2019)
  4. Rocha, Reis e Araújo, Avaliação do volume necessário de descarte de água de chuva, REEC/UFG (2011)
  5. Hagemann e Gastaldini, Variação da qualidade da água de chuva com a precipitação, RBRH (2016)
  6. MDS, Programa Cisternas
  7. MDS, Instrução Normativa SESAN nº 51/2024, cisterna de placas de 16 mil litros
  8. Gov.br, Receber tecnologia social de acesso à água para consumo familiar
  9. Ministério da Saúde, levantamento de criadouros do Aedes aegypti (out. 2026)

Análises de cisterna e chuva